Flexibilidade é a palavra-chave

“Não há como fugir das agressões à coluna vertebral”, reconhece o fisioterapeuta francês Philippe Souchard, criador do método RPG – Reeducação Postural Global.
“Perdemos o rumo das coisas naturais. Com a vida moderna, passamos tempo demais sentados – no carro, na frente da televisão ou do computador - , em posição de enrolamento lombar. Além disso, estamos sempre estressados, tensos, o que também contribui para enrijecer os músculos. Com o correr dos anos, esse enrijecimento vai comprimindo as articulações, causando deformações e dores sistemáticas.”
Autor de vários livros que abordam os mais diferentes aspectos relacionados à coluna vertebral, entre eles o recente lançamento no Brasil As Escolioses, Souchard recomenda que as pessoas façam diariamente dez minutos de alongamento muscular. E ilustra seua recomendação com um exemplo simples: depois de um dia intenso de atividades, as calças que você vestiu estarão marcadas, com dobras. Será preciso estica-las à noite, para que estejam em bom estado na manhã seguinte. Com a musculatura é a mesma coisa: você precisa alonga-la para que retoma sua forma original.
“Não podemos exigir um controle permanentemente das pessoas sobre todos os seus movimentos – seria uma tortura”, admite. “O que precisamos fazer é aumentar a resistência do nosso corpo, condicionando-o a retornar automaticamente uma boa posição e,a através dos alongamentos, mantendo a flexibilidade muscular. Flexibilidade é a palavra-chave. Cada vez que perdemos a flexibilidade dos músculos, as articulações endurecem e ficam doloridas.”
As conseqüências, segundo ele, vão além das dores, podendo criar sintomas diversos: “Todos os nossos nervos principais saem da coluna vertebral”.
Uma lesão nas vértebras cervicais superiores pode gerar perturbação da visão, do equilíbrio, dor de cabeça, zumbido, enjôo. A lesão dos músculos que vêm da coluna vertebral pode chegar a perturbar a digestão. Pode também atingir a parte de trás da barriga da perna, afetando todo o nervo ciático, ou ainda atrapalhar o funcionamento do intestino, caso atinja o nervo que vai até esse órgão.”
Uma grande confusão que as pessoas fazem, no entender do fisioterapeuta, é achar que estão tratando a musculatura quando fazem exercícios. Fazer exercícios como bicicleta e corrida, é uma coisa boa, conforme explica, por causa da transpiração, do sistema de circulação cardíaco, da respiração. No entanto, essas atividades contribuem para encurtar os músculos. Para aqueles que gostam de praticá-las, o conselho é buscar o equilíbrio – dedicar 50% do tempo aos exercícios e 50% aos alongamentos, a fim recolocar a musculatura em forma.
Ele esclarece que temos duas categorias de músculos: os dinâmicos, como os abdominais, que tendem a relaxar e se tornar flácidos com o tempo e, portanto, necessitam de exercícios de contrações, e os estáticos, como os tibiais, da barriga da perna, e os espinhais, que estão em constante retração e precisam de alongamento. O primeiro passo do método RPG é fazer a classificação desses músculos e, a partir daí, trabalhar o alongamento e a flexibilidade dos que encontram em permanente encurtamento, sujeitos ao enrijecimento devido às atividades repetitivas, condicionando o corpo a reassumir as posturas corretas de maneira automática.
Os programas de RPG são específicos para cada pessoas, adaptados ao problema de rigidez que cada caso apresenta. E o que é essencial, como salienta Philippe Souchard: os músculos são trabalhados globalmente. “Isso é um pouco básico para o sucesso do tratamento, pois nossos músculos são organizados em forma de cadeias musculares dos pés aa cabeça, como elos de um colar”,enfatiza. “É como uma corda – para estica-la, você precisa puxar as duas extremidades. Não se pode puxar uma extremidade sem pensar na outra. Trata-se de um processo extremamente complexo, uma vez que o corpo humanoi tem várias cadeias musculares. Mas os resultados são excelentes e, o que é importante, definitivos.”
Pessoas de qualquer idade podem se submeter a esse tipo de tratamento, que envolve a participação ativa do paciente. “O indivíduo vai reaprender a morar no próprio corpo e a utiliza-lo de modo correto”, diz o fisioterapeuta.
“É um processo lento e progressivo. Por meio de estiramentos suaves, conseguimos devolver o comprimento, a flexibilidade e a força aos músculos, liberando as articulações.” Como prevenção, ele comenta que seria ótimo se as pessoas buscassem ajuda assim que o problema surgisse, evitando uma deformação grave.
Muitos jovens apresentam o problema de escoliose, por exemplo, que costuma aumentar na fase conhecida como pico do crescimento, tornando-se às vezes complicado e difícil de tratar.
Criado em 1980, o método RPG, foi desenvolvido em dez países, além da França. Conta hoje com mais de 7 mil profissionais especializados – 2200 no Brasil -, atuando em várias áreas, desde as patologias traumáticas, reumáticas e neurológicas até as morfológicas e as respiratórias, que afetam um número imenso de pessoas. “O grande retorno desse trabalho é o aumento da qualidade de vida, que tem sido constatada em todos os casos”, ressalta Souchard. “Cuidar dos problemas corporais é mais importante do que se imagina. Muitos adolescentes desenvolvem complexos sérios devido a deformação físicas. E como se pode ter alegria de viver quando se tem dor?”.
Ele salienta que os brasileiros têm demonstrado sensibilidade e competência na realização desse trabalho, porém faz um alerta: “Nessa área, existe muito oportunista. Para aproveitar ‘a onda da moda’, há muita gente se propondo a fazer RPG sem a especialização necessária e até se intitulando professor, em total desrespeito à profissão e ao paciente”. Seu conselho é que, antes de se submeter ao tratamento, o paciente se informe na Sociedade Brasileira de RPG, para saber se o profissional tem a formação adequada.

Philippe Souchard diz: “Quando se pode ter alegria de viver quando se tem dor”.


Livraria Cultura News
Setembro/Outubro 2001



 
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